História

A Faculdade de Farmácia de Lisboa tem a sua origem na Escola de Farmácia anexa à Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, criada por Passos Manoel em 1836. Desde esta data até 1911, o ensino superior de Farmácia foi sempre ministrado nessa Escola, passando depois para a Faculdade de Medicina, de onde só saiu em 1918. Apesar da existência deste curso, manteve-se também a antiga forma de acesso ao título profissional, através da prática nas farmácias, seguida de um exame final na Escola Médico-Cirúrgica. O número dos que acediam à profissão por este processo, chamados “farmacêuticos de segunda classe”, foi sempre muito superior aos que seguiam o curso regular, os “farmacêuticos de primeira classe”. A Escola de Farmácia tinha apenas um professor farmacêutico, sendo médicos os restantes. O primeiro a exercer essas funções foi o administrador da botica do Hospital de S. José, até que esses lugares foram considerados incompatíveis. Em 1840 foi admitido José Tedeschi, precisamente, primeiro aluno a ser formado pela Escola.

 

Em 1902, Hintze Ribeiro submeteu ao Parlamento um projeto de reforma que acabava com a distinção entre farmacêuticos de primeira e de segunda classe, obrigando todos os candidatos a farmacêuticos à frequência do curso de Farmácia.

 

O curso compreendia, então, as seguintes disciplinas, com aulas teóricas e práticas:

1.° Ano:

1.” Cadeira: História Natural das Drogas, Posologia;

2.” Cadeira: Farmácia Química, Análises Microscópicas e Químicas Aplicadas à Medicina e à Farmácia.

2.º Ano:

3.” Cadeira: Farmacotecnia e Esterilizações;

4.” Cadeira: Análises Toxicológicas, Química Geral, Alterações e Falsificações de Medicamentos e Alimentos.

 

Para a matrícula no primeiro ano, o aluno devia estar aprovado nas cadeiras de Química e Botânica da Escola Politécnica, possuir o curso complementar dos liceus ou o curso geral e, conforme a habilitação, dois ou três anos de prática farmacêutica, avaliada por um exame com cinco provas práticas. O pessoal docente da Escola de Farmácia era constituído por três lentes catedráticos e um lente substituto. O Diretor e o Secretário eram os mesmos que os da Escola Médico-Cirúrgica. Para se fazer face aos encargos provenientes da manutenção das Es­colas de Farmácia, a Lei de 1902 criou um selo sobre as especialidades farmacêuticas, mas esse imposto nunca chegou de facto a beneficiar o Ensino Farmacêutico.

 

O movimento geral de reforma do ensino levado a cabo pela 1ª República não deixou de fora a Farmácia. Com a constituição da Universidade de Lisboa, em Março de 1911, a Escola de Farmácia continuou anexa à mesma instituição, agora denominada Faculdade de Medicina. O pes­soal docente passou a ser constituído por três professores ordinários, um extraordinário, um primeiro assistente e dois segundos assistentes. O curso passou a ter a duração total de 8 semes­tres, dando direito ao título de farmacêutico químico:

 

1.° e 2.° Semestres: Curso de Química Inorg8nica (semestral); Curso de Química Orgânica (Semestral); Curso de Botânica Geral; Curso de Física Farmacêutica (Semestral).

3.° e 4.° Semestres: Curso de Química Analítica Qualitativa e Quantitativa; Curso de Zoolo­gia Farmacêutica (Semestral); Curso de Botânica, Criptogamia e Fermentações; Cur­so de Mineralogia, Geologia e Hidrologia.

5º e 6º Semestres: 1ª Cadeira: Química Farmacêutica Curso de Bacteriologia (semestral);

2ª Cadeira: História Natural das Drogas. Posologia; Curso de Química Biológica (semestral); Curso de Análise Bromatológica e Falsificação de Medicamentos.

7º e 8º Semestres: 3ª cadeira: Farmacotecnia; Curso de Análise Toxicológica e Química Legal; Curso de Legislação e Deontologia Farmacêutica (semestral).

 

Apesar do ambicioso plano de estudos da reforma de 1911, a manutenção da Esco­la de Farmácia dentro do espartilho da Faculdade de Medicina impediu o seu cabal desenvol­vimento. O Decreto nº 4653, de 14 de Julho de 1918, veio determinar que o ensino da farmácia fosse ministrado nas Escolas Superiores de Farmácia das três Universidades, as quais seriam independentes e autónomas. As disciplinas passaram a estar distribuídas por 4 secções: Química Geral, Química Aplicada, História Natural e Farmácia, cursadas no tempo mínimo de quatro anos, sendo exigido o curso complementar de Ciências dos liceus para a matricula. Fora a nova arrumação, este plano de estudos apenas alterou a denominação e o posicionamen­to de algumas disciplinas, nomeadamente transformando a cadeira de Farmacotecnia (3ª) em Técnica Farmacêutica e Farmácia Galénica. Este diploma suprimiu o estágio em Far­mácia Hospitalar, já anteriormente dispensado por despacho ministerial de 1916, interrompen­do uma ligação entre o ensino farmacêutico e os hospitais, que só começou a ser reto­mado recentemente e que ainda não foi possível institucionalizar de forma satisfatória. No ano seguinte foi determinado que à aprovação no último exame académico correspondia o grau de licenciado, após o que o aluno requeria um exame de Estado, que lhe dava direito ao diploma de farmacêutico químico.

 

Em 1919, foi reconhecido que a Escola funcionava mal nas instalações inade­quadas, acanhadíssimas e dispersas da Faculdade de Medicina. e que era urgente dar-lhe instala­ções definitivas, modernas e pedagogicamente adequadas. Para esse efeito, foi autorizado um empréstimo de 500 contos para aquisição do terreno e construção do edifício e ainda para aqui­sição de equipamento escolar. Em 1920, a Comissão encarregada de edificar a Escola adquiriu para esse efeito a Quinta da Torrinha, por 225 contos. A escolha foi justificada por se tratar de um vasto terreno, simultaneamente afastado do bulício da cidade, mas perto dos seus centros, em local onde havia a ideia de construir o Bairro Universitário, do qual poderia vir a ser o núcleo, embora naquela altura pudesse parecer ficar deslocado. Pouco depois, o Arq.º Amílcar Pinto apresentou à Comissão um projeto das novas instalações da Escola. Apesar de tudo, a casa de habitação da Quinta, que a Comissão não pensava aproveitar para as instalações, acabo por ser, de facto, a sede deste estabelecimento de ensino durante os 50 anos seguintes, completada pelo aproveitamento dos armazéns de alfaias agrícolas, adaptados a laboratórios. Depois de iniciada a construção, com diversas dificuldades, como no recebimento do crédito previsto e o aumento inesperado dos preços dos materiais, a obra acabou por ser embargada pela Câmara por invadir terrenos destinados ao prolongamento da atual Avenida das Forças Armadas, ficando reduzida a um conjunto de ruínas cobertas de vegetação. O pouco dinheiro ainda disponível foi entretanto utilizado na adaptação da moradia da Quinta a sede da Escola, transformando-se quartos e salas de habitação em laboratórios, salas de aula, secretaria e biblioteca em 1953 foi possível levantar, sobre o que restava das fundações primitivas, o atual edifício A.

 

Em 1921, com o Decreto n.o 7.238 de 18 de Janeiro, a Escola Superior ascendeu a Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa. competindo-lhe atribuir os graus de licenciado e doutor em Farmácia e conferir o diploma de farmacêutico-químico. A primeira vez que conferiu o grau de doutor foi em 1923, a Raul de Carvalho. Em 1926, o plano de estudos de Farmácia foi novamente modificado com o Decreto nº 12.698. As disciplinas passaram a estar distribuídas por dois grupos: Química (1.°) e História Natural e Farmácia (2.°). Seguiu-se, apenas quatro anos depois, o Decreto nº 18.432, segundo o qual o curso, de quatro anos, passou a ter a seguinte distribuição:

 

1º Ano: Curso Geral de Química; Curso Geral de Química Qualitativa; Análises Físicas e Físico-Químicas Aplicadas à Farmácia; Curso de Botânica Geral; Curso de Técnica Farmacêutica.

2º Ano: Curso de Análise Química Quantitativa; Química Farmacêutica Inorgânica; História Natural das Drogas I; Criptogamia e Fermentações; Técnica Microbiológica.

3º Ano: Química Farmacêutica Orgânica; História Natural das Drogas II; Farmácia Galénica (1º e 2.º semestres); Química Biológica e Análises Bloquímicas; Hidrologia Farmacêutica; Higiene.

4º Ano: Bromatologia e Análises Bromatológicas; Toxicologia e Análises Toxicológicas; Farmacodinamia; Farmácia Galénica (3º semestre); Indústrias Farmacêuticas; Deontologia e Legislação Farmacêutica.

Algumas disciplinas dos dois primeiros anos eram ministradas na Faculdade de Ciências (Escola Politécnica).

 

As esperanças postas na Faculdade de Farmácia de Lisboa e os esforços despendidos para o seu desenvolvimento viriam, em curto espaço de tempo, a sofrer um rude golpe. A Faculdade de Coimbra fora já suprimida em 1928, juntamente com outros estabelecimentos, como parte da contenção das despesas orçamentais determinada pelo Estado Novo, seguindo­se-lhe a de Lisboa. A 8 de Novembro de 1932, foi também extinta a Faculdade de Lisboa e criadas, em substituição, as Escolas de Farmácia de Lisboa e Coimbra. Desta forma, o ensino da Farmácia fez marcha atrás até ao principio do século, regressando à dualidade de cursos que tanto atrasa­ra o desenvolvimento da profissão e das ciências farmacêuticas em Portugal. A Farmácia ficou com um curso de licenciatura na Faculdade do Porto e com cursos médios de três anos nas Esco­las de Lisboa e Coimbra.

 

Menos de trinta anos depois do falhanço do projeto inicial de edificar devidamente a Escola de Farmácia, a Quinta da Torrinha começou a ser retalhada em proveito de terceiros. Em 1937, foram desanexados 21.522 dos 36.000 m2 originais. A parte desanexada é a que ho­je se encontra para lá do muro que acompanha a Av. das Forças Armadas, abrangendo a Aveni­da e os blocos de habitação em frente à Faculdade, até ao muro do mercado, numa extensão que vai desde a Cantina Nova até à esquina em frente ao Café Pátria. A desanexação foi feita atra­vés de negócios entre o Estado e uma firma proprietária de terrenos. Em troca dos quase dois terços da Quinta da Torrinha, o Estado recebeu quatro lotes, na área onde hoje estão a Reitoria, as Faculdades de Letras e de Direito e a Cantina Universitária.

 

Em 1966, a Quinta, ou o que restava dela, foi novamente amputada duma grande fatia, para construir o edifício do Instituto de Física e Matemática. Pouco depois, foi cedida outra par­cela para a construção da Cantina Nova. Como consolação foi construído, em 1961, o pavilhão de Tecnologia, seguindo-se, em 1967 e nos anos seguintes, a construção do Pavilhão de Biolo­gia. Desde a derrocada do plano dos anos vinte, vários projetos surgiram para substituir defi­nitivamente as antigas construções da Quinta da Torrinha. O projeto atual aproveita o que existe do Pavilhão de Biologia, prevendo o aumento das instalações através de outro pavilhão ligado a este.

 

Em 1968 foi reinstituído o Curso Complementar de Farmácia em Lisboa, através do Decreto-Lei n.o 48.696, que transformou as Escolas de Farmácia novamente em Faculdades, com o mesmo plano de estudos que vigorava na Faculdade do Porto.

 

O plano instituído pelo Decreto-Lei n.o 111/78, substituiu o velho plano com mais de quarenta anos e que ignorava totalmente as importantíssimas transformações ocorridas nas Ciências Farmacêuticas desde a Segunda Guerra Mundial. Baseado em várias experiências de alteração curricular ocorridas nas três Faculdades de Farmácia desde 1974, o Decreto n.o 1l1//78 deter­minou que a licenciatura em Ciências Farmacêuticas seria conferida em três áreas: Farmá­cia de Oficina e Hospitalar (Área A), Farmácia Industrial (B) e Análises Químico-biológicas (C), o que já não acontece. Além disso incluiu um estágio pré-licenciatura, com a duração de seis meses. Este plano de estudos, além das disciplinas tradicionais do curso, passou a incluir outras como: Matemática Aplicada, Anatomia Humana, Fisiologia Humana, Semiolo­gia e Patologia Geral, Imunologia, Hematologia, Nutrição e Dietética, História da Far­mácia, Gestão Farmacêutica, Elementos de Sociologia, Dermofarmácia e Cosmética, Far­mácia Hospitalar, entre cerca de seis dezenas distribuídas pelas três áreas.

 

Hoje, a FFULisboa leciona disciplinas diferenciadoras, algumas delas em ambiente hospitalar. Deste modo, e também através de disciplinas de Projeto, garante aos seus alunos a ligação à actividade farmacêutica e às Unidades de Investigação.

 

Em 2013, a Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa obteve o reconhecimento da Ordem dos Farmacêuticos através da atribuição, por unanimidade, da Medalha de Honra.