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O Complexo Mycobacterium tuberculosis

 

A tuberculose (TB) em humanos e outros mamíferos é causada por espécies do complexo Mycobacterium tuberculosis (CMtb) (Forrellad et al., 2013). O CMtb é constituído por um grupo de espécies de micobactérias geneticamente muito semelhantes com cerca de 99,9% similares ao nível do ADN. Apesar da aparente homogenidade genética, os membros do CMtb apresentam características fenotípicas diversas e espectros de hospedeiros diferentes (Tabela 1).

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De todos os membros do CMtb o Mycobacterium tuberculosis (Mtb) é a mais estudada infectando cerca de um terço da população humana e podendo também infectar animais em contacto com humanos. As espécies M. canettii e M. africanum, podem também causar TB em humanos e são mais frequentemente isolados em pacientes africanos ou com ascendentes africanos (Forrellad et al., 2013). Por outro lado, o M. bovis, apresenta o espectro mais alargado de hospedeiros, infectando tanto humanos como bovinos domesticados e selvagens e cabras (Sales et al., 2001). A espécie M. caprae foi isolada de cabras apenas na europa (Arnaz et al., 2003). M. microti infecta roedores, sendo normalmente isolado em musaranhos pertencentes ao género Microtus, podendo também causar doença em humanos imunocomprometidos (Panteix et al., 2010). O M. pinnipedii infecta focas (pinípedes) (Cousins et al., 2003). Recentemente foram também isolados e incluídos neste grupo o M. orygis isolado do oryx e outros membros da família Bovidae (van Ingen et al., 2012) e o M. mungi isolado na espécie Mungos mungo, pertencente à mesma família que os suricatas, tendo também sido implicado na tuberculose humana (Alexander et al., 2010) O mutante de M. bovis seleccionado laboratorialmente, isolado por Calmette e Guérin, conhecido como M. bovis var BCG, é a única vacina existente, para prevenir a TB durante a infância.

Evolução

Um crescente número de evidências aponta para que os membros do CMtb terão evoluído a partir de um ancestral comum, diversificando-se através de sucessivas deleções/inserções de ADN, resultando na especiação e diferenças na patogenia observados actualmente. Através da análise genética aos membros deste complexo foi possível determinar a existência de 14 regiões de diferença (RD). A análise destas RD conjuntamente com polimorfismos de nucleótido único permitiu estabelecer relações filogenéticas entre os membros deste grupo (Brosch, 2002) (Fig.1). Adicionalmente, essas regiões estão presentes na estirpe de referência laboratorial de Mtb H37Rv e estão ausentes na estirpe atenuada utilizada como vacina M. bovis var BCG, permitindo a localização cromossomal dos genes associados com a virulência. Esta análise fundamentou também que o M. bovis não terá sido o percursor evolutivo do Mtb, como inicialmente foi sugerido, tornando improvável que a TB humana terá tido origem na domesticação de gado.

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Recentemente foram efectuados estudos filogenéticos às espécies do CMtb adaptadas aos humanos (i.e. Mtb e M. africanum) permitiram estabelecer 6 linhagens principais (Gagneux, 2006). Cada linhagem parece estar associada com populações humanas específicas (Fig.2). Um crescente número de evidências sugere que a variação das estipes de Mtb tem significado biológico e que genótipos específicos estão associados a fenótipos específicos. Apesar da diversidade genética parecer influenciar a apresentação clínica da TB em humanos, os factores específicos para este fenómeno são ainda desconhecidos. Uma das linhagens de Mtb mais estudadas devido à sua associação com surtos de TB e virulência é a família Beijing/W (a linhagem asiática oriental).

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Actualmente é amplamente aceite que as estirpes do CMtb terão sido originárias de micobactérias ambientais. Estudos filogenéticos indicam que o CMtb emergiu há cerca de 70000 anos e que as espécies do CMtb adaptadas aos humanos terão acompanhado as migrações do homem moderno para fora de África e co expandiu-se com o aumento da densidade da população humana durante o período neolítico dando origem às linhagens e distribuição actuais (Comas et al., 2013). Estas estirpes terão evoluído de forma a persistir em populações de baixa densidade, causando tuberculose activa seguida de um longo período de infecção latente. A introdução da agricultura, civilização e o aumento da densidade populacional em áreas urbanas levou à selecção de estirpes modernas de Mtb com virulência e transmissibilidade mais eficiente. As estirpes de Mtb modernas difundiram-se pelo globo causando epidemias de TB que assolaram a humanidade durante séculos e são responsáveis pela maioria dos casos de TB actualmente (Delogu et al., 2013).

 

O Mtb

 O Mtb é o principal agente etiológico de quase a totalidade de TB em humanos. Esta bactéria pertence à família Mycobacteriaceae e ao género Mycobacterium, este com mais de 100 espécies diferentes entre os quais alguns patógenios humanos.

O Mtb é um bacilo Gram indeterminado tendo tanto características de bactérias Gram-positivas como negativas. Sendo um bacilo tem forma de bastonete, não tem flagelos, não forma esporos nem produzindo toxinas (Fig 3). Esta bactéria replica-se muito lentamente, com um tempo de divisão de cerca de 24 horas. O Mtb tem cerca de 0,5µm de diâmetro e 1-4µm em comprimento e é um patogénio intracelular aeróbio (Ducati et al., 2006).

Mtb microPrimir a imagem para aumentar.

 

Abreviaturas

Tuberculose                                                                     TB

Mycobacterium tuberculosis                                            Mtb

Complexo Mycobacterium tuberculosis                          CMtb

 

Bibliografia

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